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Posts Tagged ‘música despretensiosa’

OK, todo mundo sabe que é saudável não se levar a sério e ter senso de humor suficiente para rir das próprias gafes e burradas. Não se levar a sério é bom porque promove a crítica e, principalmente, a autocrítica. Mas, em música, essa atitude de “não me levo a sério, juntei aí uns amigos na garagem lá de casa pra fazer um som e saiu a banda” me incomoda, e incomoda muito.

Primeiro porque é falácia – 90% das bandas que dizem que não têm muita noção do que fazem e que não curtem se levar a sério porque isso é coisa de gente prepotente confundem despreocupação com displicência. Segundo porque ser ambicioso não é algo ruim. Tudo bem que quanto maior a pretensão maior o tombo se der errado, mas querer fazer um álbum foda é algo incrível, louvável, corajoso. Esse discurso babaca de “ah, a gente foi juntando as composições aos pouquinhos e fizemos na boa, sem muita pretensão, só gravando para a gente e nossos amigos” é, oi, CHATO. Pelo amor de deus, coloca o seu na reta, assume o risco de fazer algo fodão, mesmo que dê barbaramente errado. Quer dizer: se der errado, ah, a gente só fez para nossos amigos, e foi só uma tentativa pequena, nosso verdadeiro álbum ainda vem por aí. Agora, se por acaso dá certo, são os novos gênios da música.

Falar que a sua banda não se leva a sério é uma maneira bem fácil de não ser cobrado por resultados e de não precisar ter a coragem de dar a cara a tapa para as críticas (que virão) e para o público (que nem de longe é estúpido). Se o seu negócio é misturar axé com samba com dancehall com grindcore, amigo, abraça o capeta e se joga no inferno. Acredite no que você está fazendo, coloque seu coração nisso, para o bem e para o mal. Porque daí o resultado vai ser sincero, o que por si só já é um avanço para a cena musical. Pode ser uma merda, mas é um risco que todo mundo que se joga de cabeça nas coisas corre. Todo mundo que é apaixonado por alguma coisa e que se joga sem medo em projetos arriscados (e assume que, sim, está tentando fazer algo fora de série) cedo ou tarde vai virar motivo de piada. E daí? Toca o foda-se e faz o que te der na telha. Quem sabe assim essa chatice de “ai, sabe, nunca quis fazer nada demais, sempre quis fazer algo só pra mim” acabe de vez. Que eu saiba, quando alguém quer fazer algo APENAS para si próprio, é bem simples: grava aí no seu PC, mostra pros seus amigos e deixa quieto. Colocou para todo mundo? Então aguenta o tranco.

Mas é óbvio que essa história, como todas as outras, não tem só esse tópico a ser discutido. Algumas vezes esse discurso de “não sabia o que estava fazendo” é verdade mesmo – ou porque a banda ainda não tem noção do que faz por falta de estrada e experiência na indústria musical ou porque é um meme criado por produtores e figurões das gravadoras, por exemplo. Daí é outra história, embora seja igualmente complicada e envolva muitas pessoas.

Mas o resumo da ópera é o mesmo: talvez seja a hora de parar com esse discurso de “é tudo sem querer, nós não nos levamos a sério”. Vai esperar até quando então para colocar a cara a tapa?

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