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Archive for the ‘Teorias e Teóricos’ Category

Sabe quando você lê um livro que muda sua percepção das coisas e traz tantas reflexões que a realidade começa a parecer absurdamente confusa, complexa e ininteligível? Um pouco depois, entretanto, surge a impressão de que o conceito extraído da leitura torna-se uma pequena chave: algumas coisas passam a fazer sentido, e alguns fragmentos do mundo tornam-se codificáveis.

Aconteceu comigo. Culpa do Roberto.

Hoje, lendo as manchetes do UOL, me deparei com a foto acima. Linda. A obra se chama “The Fairy Eletricity”, do artista Raoul Dufy, exposta no Museu de Arte Moderna de Paris. Imediatamente, me lembrei do seguinte trecho do texto O Mundo Codificado, de Vilém Flusser:

“Se compararmos nossa situação atual com aquela que existia pouco antes da Segunda Guerra Mundial, ficaremos impressionados com a relativa ausência de cores no período anterior à guerra. A arquitetura e o maquinário, os lviros e as ferramentas, as roupas e os alimentos eram predominantemente cinzentos. Nosso entorno é repleto de cores que atraem a atenção dia e noite, em lugares públicos e privados, de forma berrante ou amena. Nossas meias e pijamas, conservas e garrafas, exposições e publicidade, livros e mapas, bebidas e ice-creams, filmes e televisão, tudo encontra-se em technicolor”.

Olhando os objetos que nos cercam, vemos que todos os cartazes de cinema usam as cores de maneira a passar uma mensagem determinada por meio dessas nuances cromáticas. Aliás, nós mesmos organizamos nosso cotidiano usando as cores: quem não usa marcadores coloridos no Gmail? Pastas de diferentes cores para organizar papéis e documentos? Marcações em vermelho no calendário para lembrar de um compromisso? Quem faz faculdade normalmente grifa as partes mais importantes dos textos com aquelas canetas amarelas, ou não é?

Mais do Flusser:

“Essa explosão de cores significa algo. O sinal vermelho quer dizer stop!, e o verde berrante das ervilhas significa compre-me!. Somos envolvidos por cores dotadas de significados; somos programados por cores, que são um aspecto do mundo codificado em que vivemos (…). Consequentemente, a presente explosão de cores indica um aumento da importância dos códigos bidimensionais. Ou o inverso: os códigos unidimensionais, como o alfabeto, tendem atualmente a perder importância”.

Eu fico pensando: como será o futuro, esse mundo da superfície? Se o mundo não segue mais um esquema linear de codificação, como se adequar a uma realidade tão diversa? Ao menos, ler Flusser ajuda. Eu acho.

Ah, antes que eu esqueça: Pepperland é tãaao colorida. Se esse for o mundo em superfície, eu topo. O LSD é semiótico.

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Para determinadas coisas, não existe explicação. Simples assim. Há alguns minutos atrás, eu estava lendo algumas críticas do Site Bodyspace.net, que reúne matérias muito boas sobre música. De repente, me deparo com uma manchete inusitada. Atentem para o lado superior esquerdo da imagem.

Para mim, ao menos até agora, sempre existiu só um Walter Benjamin: o alemão que escreveu livros e ensaios fantásticos, como A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica, O Narrador e Trabalho das Passagens (obra inacabada de aproximadamente 1.100 páginas sobre as galerias parisienses do século XX). E, sem refletir, olhei para a matéria e pensei: “Como assim? Ele escreveu algum artigo sobre as preferências musicais dele? Mas que diabos isso estaria fazendo nesse Site?”. Em nenhum momento cogitei que fosse só um homônimo.

Pior: comecei a imaginar quais seriam os gostos musicais, literários e culturais de todos esses teóricos que leio, estudo ou já ouvi falar: Pierre Bourdieu, Michel Foucault, Roland Barthes, Guy Debord, Edgar Morin, Jean Baudrillard, Gilles Deleuze, Antonio Gramsci, etc. O que esse povo lia, ouvia, gostava? Seria legal ver Michel Foucault balançando a cabeça ao som de Across the Universe, Barthes sorrindo ao ler Borges, Adorno traindo a si mesmo ouvindo Beach Boys

E quer saber? O gosto musical do Walter Benjamin homônimo não envergonharia tanto o original: Beach Boys, Beatles, Bob Dylan, Lou Reed, Simon & Garfunkel… Imagina todos esses teóricos dançando em Pepperland?

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