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Archive for the ‘Teatro’ Category

Já escrevi aqui sobre a incrível adaptação feita pela Companhia dos Satyros da obra máxima do Marquês de Sade, 120 Dias de Sodoma. Falei do horror, das cenas de tortura e da sensação que é presenciar uma montagem de um texto com tal nível de subversão. O que eu não sabia é que o horror, no caso, não vem do texto nem da montagem – vem da possibilidade de existir um mundo no qual todo abismo é permitido. E, mais do que isso – o horror vem do cinismo de um mundo que não consegue mais enxergar a própria essência. Testemunhei uma apresentação da peça na qual alguns espectadores riam das cenas de tortura e do cinismo dos libertinos; faziam galhofa da tortura de crianças aprisionadas por 120 dias em um castelo longe de qualquer tipo de civilização; sentiam prazer em ver cenas absolutamente macabras com cenas de assassinato e mutilação; seguiam com alegria o compasso de uma harmonia criada cuidadosamente pelos Satyros com o intuito de horrorizar. Não sei onde fica a banalidade do mal. Não sei como interpretar as reações que surgem diante de uma peça tão tresloucada, cínica e verdadeira em seu questionamento do ser humano. Só sei que é impossível compreender um riso que não venha do nervosismo ou do ódio – e que seja, ao invés disso, uma celebração da alienação questionada pela Companhia dos Satyros.

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Lenise Pinheiro

Lenise Pinheiro

 

120 Dias  de Sodoma é uma peça extremamente difícil de resenhar por várias razões. Para tentar destravar o texto, vou elencá-las: 

– O texto homônimo escrito pelo Marquês de Sade na Bastilha é um inventário do deboche: profano, libertino, descarado, criativo, tresloucado e sem limites. Uma libertinagem do abismo, formada a partir de um texto cuja linguagem era revolucionária exatamente por criar uma sintaxe nova, que unia crime e discurso, que era capaz de juntar na mesma frase hóstia e sexo. Essa característica única do texto sadeano foi detectada por Roland Barthes na análise minuciosa publicada em Sade, Fourier, Loyola, na qual explicita algumas peculiaridades da obra do Marquês, como a questão da multiplicidade de linguagens (a dos libertinos, detentores da narração, é sempre polícrona; a das vítimas, criaturas sem voz, é invariavelmente monótona, lamuriante, inútil) e a diferença da jornada libertina para a jornada descrita no romance tradicional (em Sade, o objetivo não é chegar a lugar nenhum; tudo que se faz é pelo prazer, pela fruição, e não por objetivos, metas ou desígnios). Como uma adaptação teatral poderia trazer para o espaço cênico essas características únicas do discurso e da linguagem sadeana?

– Para mim, sempre foi impossível conseguir imaginar como uma obra repleta de profanações, libertinagens inimagináveis, assassinatos e torturas das mais cruéis possíveis poderia algum dia ser adaptada para o teatro. Qual público essa montagem tentaria atingir? De que forma seria criado um pacto teatral forte o suficiente para que o público suspendesse sua indignação perante a devastação do ser humano explicitada no texto original de 120 Dias de Sodoma?

– Como seria possível representar as orgias, essenciais para a narrativa do livro, os assassinatos e as deflorações?

– O texto não foi terminado por Sade. Como o Satyros lidaria com essa incompletude?

Fui para a peça com todas essas inquietações e dúvidas. Realmente não sabia o que esperar – e o que encontrei, de fato, é diferente de tudo o que imaginava. Encontrei terror, horror e beleza. Estética, política e sangue. E cheguei a conclusão de que ao mesmo tempo em que a peça é profundamente sadeana, nada pode estar mais distante da obra original do que a adaptação do Satyros. Explico-me desenvolvendo melhor minhas opiniões e análises a respeito da peça.

Lenise Pinheiro

Lenise Pinheiro

A peça começa apresentando ao público o enredo que estrutura a história: quatro libertinos, imensamente ricos e adeptos da libertinagem mais absurda e criminosa possível, raptam oito meninas e oito meninos, virgens, para participar de grandes orgias promovidas durante 120 dias no Castelo de Silling, marginalizados e escondidos longe da civilização e de qualquer obrigação social. Além dos libertinos e das vítimas, foram chamadas também duas famosas prostitutas, que estruturam as orgias por meio de suas narrações libertinas (sendo chamadas então de Contadoras de Histórias), os fodedores e as serventes. Durante os 120 dias, as vítimas serão defloradas, torturadas e massacradas, chegando finalmente ao assassinato. No início da peça, um narrador trajado de preto narra, com tranquilidade e certa ironia, a configuração do Castelo de Silling e apresenta os libertinos, suas esposas e demais habitantes do Castelo, trazendo o público para a cena dos crimes e excessos posteriores.

A partir disto, a peça de aproximadamente 2h de duração traz seus personagens em orgias diversas, celebrações do crime e filosofias assassinas. A estrutura cênica criada no Espaço dos Satyros 2 – com platéias dos dois lados e a ação ocorrendo cravada no centro do teatro, o que traz o público para muito perto –  é perfeita, e a sensação de estar presenciando uma experiência única é onipresente, já que a coragem que o Satyros tem ao trazer os libertinos Curval, Durcet, Blangis e o Bispo em sua máxima depravação é fantástica em alguns momentos – a platéia, aliás, estava extremamente perturbada, assustada e, em muitos momentos, escandalizada.

A estrutura do texto de Sade, que descreve que todos os dias as contadoras de histórias narrarão suas experiências sexuais mais bizarras, enquanto os libertinos divertem-se com as vítimas e muitas vezes as usam para tentar experimentar o conteúdo das narrações, foi mantida, de uma maneira perturbadora e fiel. A interpretação dos atores é ótima: os quatro libertinos beiram o escrotismo, e a vontade do público é de espancá-los – ao mesmo tempo em que alguns deles são absolutamente charmosos em sua perversidade imutável e debochada. As vítimas comportam-se como no texto – totalmente passivas, sem voz, sem subjetividade alguma.

Walter Antunes

Walter Antunes

Algumas cenas alcançam tal nível de excelência cênica que beiram o sublime – o assassinato de Hebé, na qual a atriz, vestida de bailarina (porque todas as vítimas são praticamente crianças) dança enquanto outra das vítimas descreve, a partir do texto literal de Sade, seu brutal assassinato; a cena na qual uma das torturas é simbolizada por umas das vítimas envolta por panos sob uma música quase tribal (cena da foto acima); a cena do nascimento do filho de Constante durante o banquete e seu destino último; e a cena do baile, na qual os atores chamam o público não só para dançar sem roupa em meio aos atores e participar da orgia, como para xingar, ao mesmo tempo, umas das vítimas e uma das Contadoras de História.

Entretanto, duas coisas me incomodaram bastante na montagem dos Satyros. Uma delas aparece em uma das últimas cenas da peça, na qual os atores, sentados e vestidos (já que as vítimas aparecem sem roupa durante toda a peça), dizem, dirigindo-se diretamente ao público, que tais atrocidades acontecem porque as vítimas não fazem nada. As vítimas comportam-se como cordeiros, dóceis e passivos, deixando que os poderosos pisem e massacrem o povo a seu bel prazer. Nós, dizem eles, somos os reponsáveis pela corrupção da sociedade atual – porque deixamos que a situação chegue ao extremo; tal vez até porque seja mais fácil ser vítima do que cidadão. Esse discurso lembra o livro Discurso da Servidão Voluntária, de Etienne de La Boétie, que fala de um poder exercido com a cumplicidade dos dominados, no qual a vítima se submete porque, naquele momento, ela pode tirar vantagem de sua submissão. Dentro do universo de 120 Dias de Sodoma, entretanto, não há como seguir esse raciocínio, sendo que as vítimas não estavam se submetendo por prazer ou por estarem em busca de uma recompensa maior, já que estava explícito que a única coisa que encontrariam no Castelo de Silling era a morte. Aliás, achava que essa associação entre a montagem e o livro era involuntária. Enganei-me, considerando o release que acabo de ler no Site oficial do Satyros: “Há também uma intervenção a partir do texto de La Boétie, “O Discurso da Servidão Voluntária”, em que pretendemos levar à reflexão sobre como o jogo de espelhos das projeções nos levam a delegar ao outro o poder sobre nós, como a tirania do outro só é possível porque, em alguma medida, somos responsáveis por ela”

Lenise PinheiroLenise Pinheiro

Esse raciocínio, entretanto, faz sentido quando pensamos sobre o motivo pelo qual o grupo Satyros adaptou o texto mais importante e difícil do Marquês. “Em setembro de 2005, Rodolfo Garcia Vázquez e Ivam Cabral discutiam sobre a grave crise política brasileira e a indignação diante de tanta corrupção e, principalmente, diante do silêncio estático da população. Consideraram que fosse fundamental tocar nesse assunto, que o teatro não poderia mais fingir não respirar a atmosfera de uma das épocas mais turbulentas da história recente do nosso país. Surgiu então a proposta de montar “Os 120 Dias de Sodoma”. A partir disso, seria importante frisar a questão da submissão voluntária para mostrar ao público como o Brasil sofre com a passividade e a delegação de poder a governantes inábeis. E esse é o segundo problema ao qual me refiro. Pormenorizando outra vez, essa questão se divide em três questionamentos:

– Adaptar a obra prima do Marquês de Sade e levá-la aos palcos “apenas” por fruição estética seria leviandade? A obra só é revolucionária e perturbadora apresentando-se como crítica política?

– O texto original do Marquês testava os limites do ser humano. Levava a paixão e o crime ao abismo. Nunca foi crítica ou sátira política. Sade não era um homem revolucionário politicamente.  Não era um “militante”. Era um escritor, um poeta.

– Não seria um pouco pretensioso demais considerar que o fato de montar 120 Dias de Sodoma transforma o Grupo em uma luz intelectual capaz de mostrar à sociedade brasileira sua podridão e levá-la a uma posterior conscientização? Não é dar ao teatro uma função que não obrigatoriamente é dele? Onde está a estética, a fruição, o prazer pelo prazer, fazer teatro sem obrigatoriamente aderir a uma causa, a um engajamento? Porque 120 Dias de Sodoma não leva os libertinos a lugar algum exatamente porque eles nunca quiseram ir a lugar algum – experimentar o desejo, a felicidade libertina, a repetição do crime, são as únicas forças motrizes da história. E é isso. E não “só” isso.

A discussão ainda pode ir muito mais longe, porque é uma peça que tem muitos pontos positivos e pontos negativos intrigantes e passíveis de refutação, reelaboração e está sempre aberta a novos questionamentos. Preciso vê-la novamente e revisitar o texto original para continuar debatendo todas estas questões com motivações e elementos novos. E uma coisa é certa: é preciso muita coragem para adaptar 120 Dias de Sodoma.

*Agradeço a Laisa Beatris pela indicação de umas das fotos e pelas discussões sobre a peça.

*O subtítulo da matéria, Felicidade Libertina, vem da obra homônima de Eliane Robert Moraes, especialista em Sade. A obra completa, uma tese de Doutorado, pode ser encontrada na biblioteca da FFLCH/USP.

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manual22

Neste domingo, dia 14/12, fui conferir a montagem completa da peça Manual Prático Para o Anonimato, cujo esquete eu tinha visto na Satyrianas, ainda sob o nome provisório de Chuck Palanhniuk. A peça, dos alunos da Oficina dos Satyros, é muito bem estruturada, e ter tido a oportunidade de ver primeiro alguns esquetes e só depois a obra completa possibilitou que eu percebesse a evolução das técnicas cênicas utilizadas e o amadurecimento da proposta inicial, que mostrava diversos personagens buscando, cada um com seus dramas e neuroses particulares, tornar-se o protagonista da peça. A peça é baseada na técnica do Teatro Veloz, que busca criar um teatro capaz de ser um contraponto e uma crítica visceral ao consumismo do mundo moderno e à transformação do ser humano em mercadoria. “ O Teatro Veloz propõe a suspensão do ‘tempo-vale-ouro-capitalista’ para o tempo do encontro, da comunhão ritualística”. Para combater a alienação do mundo governado pelo capital, Manual Prático Para o Anonimato propõe que o ritual da conscientização, quem sabe, pode ser o teatro – arte capaz de criar momentos únicos, singulares, que exatamente pela sua fugacidade são preciosos e verdadeiros. Cada vez que os atores da Oficina dos Satyros repetem o ritual da peça, estão recriando momentos que não voltam mais, e que não podem ser englobados pela fúria de consumir.

Embora a proposta seja muito interessante e traga questionamentos inteligentes, a questão de ver o mundo moderno como uma máquina que engole a subjetividade e anula a individualidade do sujeito é uma crítica que já se tornou lugar-comum, e feita com tanta facilidade que já é também uma idéia vendável, pronta para ser consumida. É uma crítica feita com tanta facilidade que cai no vazio da repetição. O trunfo de Manual Prático Para o Anonimato, entretanto, é tratar dessa questão batida de uma maneira cômica, leve, que não comete o pecado de se levar tão a sério. A cena na qual um homem que se intitula Jesus grita a uma platéia hipotética dizeres de sabedoria moderna, recomendando maneiras de curar imediatamente a tristeza e a infelicidade, é hilária, e o mesmo personagem também protagoniza outro momento ótimo – quando um homem desesperado pergunta a ele o que fazer para se livrar da agonia existencial que o impede de dormir, ele responde: já tentou feng shui? Aromaterapia? Cristais?

Para mim, uma das maiores qualidades das peças criadas pelos Satyros é a composição de algumas cenas, que conseguem beirar o onírico. É o caso da cena do casamento de Lúcia em Vestido de Noiva, observada com infinita angústia por uma Alayde imóvel que assiste a irmã casando com seu ex-marido, e também é o caso da maravilhosa cena do assassinato de Hebé, em 120 Dias de Sodoma. E os atores de Manual Prático Para o Anonimato conseguem (embora ainda de maneira experimental) criar essa combinação de posicionamento, iluminação, conceito e entrega teatral: a cena, curta, na qual uma das personagens, sentada no chão, fala sobre suas tristezas enquanto os outros personagens a rodeiam, carregando balões coloridos. Outra cena muito boa é a que mostra um dos personagens em sua rotina diária de acordar, tomar café, ir trabalhar e voltar para casa – até que não aguenta mais todo esse mecanicismo e se revolta.

Algumas cenas são um pouco cansativas, como a que mostra uma conversa de bar entre dois dos personagens, além de outra que envolve uma prostituta e seu cliente. Outro problema é que algumas das piadas são muito datadas, restritas, e perdem a graça e o efeito cômico com facilidade – a não ser, é claro, que a peça se recicle constantemente, reiventando o texto de maneira contínua. Mas, fora estes problemas, a peça merece ser vista por seus inúmeros bons momentos, pelas boas atuações e pela proposta condizente com a linha de teatro apresentada pelos Satyros. A peça tem apenas mais uma apresentação, no domingo, às 18h30, no Espaço dos Satyros 2 (esquema pague quanto puder).

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senhoradosafogados

Demorei, mas finalmente assisti Senhora dos Afogados, adaptação de Antunes Filho para a tragédia de Nelson Rodrigues. Essa é a terceira montagem do dramaturgo que vejo em pouco tempo – Vestido de Noiva, dos Satyros, Álbum de Família, da Cia. Profana de Teatro, e agora Senhora dos Afogados, que considero uma das peças mais difíceis de Nelson. Esta tragédia é tão carregada e intensa que só pode ter resultados extremos: ou um melodrama constrangedor, ou uma peça forte ao ponto de ser capaz de desconstruir a estética de qualquer dramaturgo, mesmo um tão experiente quanto Antunes Filho.

O curioso é que esta montagem de Antunes me fez rever essa idéia pré-concebida que eu tinha de Senhora dos Afogados. O resultado final da peça não corresponde a nenhum dos dois padrões acima – na verdade, mesmo sendo uma montagem linda e com momentos que balançam o espectador, ela não se realizou como uma obra-prima. Talvez esteja com essa impressão porque o público presente no Sesc Santana não colaborou para a minha compreensão da peça: as pessoas sussurravam sem parar e riam como se a tragédia montada por Antunes fosse uma coleção de momentos engraçadinhos. Normalmente, quando o espectador não entra no universo do autor a culpa é da montagem, que não conseguiu chegar até o público e trazê-lo para o universo narrativo retratado na peça. Mas não foi esse o caso. Todas as peças do Antunes que assisti exigem paciência, mas isso não significa (nem de longe) que são aborrecidas.

A montagem tem muitas escolhas interessantes: a atuação do coro dos vizinhos, determinante para o ritmo da peça, é excepcional, principalmente no momento em que Eduarda resolve deixar Misael e fugir com o noivo de sua filha; a cena em que Misael e Eduarda discutem em torno da cama de casal; e a representação da ilha das mulheres que morrem afogadas. As atuações de Lee Thaylor, como Misael, e de Angélica di Paula, como Moema, são ótimas, e o semblante contido de Eduarda (Valentina Lattuada) permanece na memória do espectador por muito tempo.

Mesmo com todas essas qualidade, a montagem de Antunes não conseguiu atingir o nível de dramaticidade que eu esperava. Creio que isso se deve ao tom melodramático que, infelizmente, permeia toda a peça, e acaba caindo no caricato. A cena final, por exemplo, não consegue alcançar o desespero e a fatalidade presentes no texto de Nelson Rodrigues – em alguns momentos, chega a parecer uma novela. Felizmente, os defeitos são poucos.

Minha pergunta é: porque ninguém monta Anti-Nelson Rodrigues? É um texto tão maravilhoso…

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E lá vamos nós para mais um dia na Satyrianas. A Praça Roosevelt estava bem menos lotada do que na sexta-feira, já que a programação do evento não se estende até a madrugada neste último dia. Desta vez, consegui assistir duas peças: Chuck Palanhniuk, às 16:20 no Satyros 2, e Catástrofe da Borboleta, às 18h30 no Satyros 1.

Chuck Palahniuk é o escritor de livros como Clube da Luta e Survivor, e é conhecido por criar em suas obras personagens marginalizados socialmente, e que destróem a si próprios em uma tentativa desesperada de reconhecimento e auto-afirmação. A peça do Satyros é muito interessante não só por partir desta premissa dos personagens que tentam, a todo custo, encontrar um lugar em uma sociedade “civilizada”, como por ser feita por alunos da Oficina do grupo Os Satyros. A peça é baseada no método do “Teatro Veloz”, criado pelo Satyros, que consiste em “um teatro que reage rapidamente aos questionamentos que o mundo nos coloca em contraposição a uma sociedade consumista de alta velocidade aparente. Como forma de resistência e redescoberta da humanidade perdida, o Teatro Veloz propõe a suspensão do ‘tempo-vale-ouro-capitalista’ para o tempo do encontro, da comunhão ritualística”. A peça, de aproximadamente 40 minutos, é composta por personagens que se apresentam ao público, contam seus dilemas e definem suas personalidades (tudo isso com um papel de identificação na mão, uma cédula que contrasta radicalmente com aquilo que dizem ser), tentando o tempo todo conseguir o papel de protagonista da peça -e, por conseguinte, protagonistas do drama humano. A peça tem momentos ótimos, como a declamação evangélica e calcada em clichês e fórmulas miraculosas para a felicidade, feita pelo personagem que emula Jesus, e a cena final, na qual os personagens comem suas cédulas de identificação – negando portanto os rótulos e os estigmas sociais – sob o som de Another Brick in The Wall Part II, do Pink Floyd. Mesmo com algumas cenas que não funcionam, a peça é muito interessante e parte de uma premissa inteligente, embora já bastante utilizada pelo teatro dos Satyros. E, antes que eu esqueça, só uma pequena observação: eu jamais pensei que fosse ouvir Ragatanga em uma peça do Satyros. Nunca. Medo…

Catástrofe da Borboleta lotou o espaço da sala dos Satyros 1, em uma apresentação muito aplaudida. Para a Companhia Teatro De Demolição, “é preciso demolir o teatro. O que queremos não é o teatro, mas a sua subversão e negação. O teatro em potência, em farrapos, em plena ruína, o teatro-sonho, o teatro-desespero, teatro-caos, o anti-teatro”. A proposta me lembrou Artaud. Mas, em cena, não me pareceu bem isso (com exceção da maravilhosa cena final, da qual falarei no final do texto). Alguns momentos da peça me deixaram cansada, o que raramente acontece no teatro. Um deles foi a cena na qual um casal discute sobre a chuva, o toque do telefone e os vizinhos, em uma conversa circular que parece não levar a lugar nenhum. As neuroses humanas e os relacionamentos falidos estão ali, pulsantes, clamando nossa atenção, e este sentimento que permeia toda a discussão entre o casal é explícito – mas a composição da cena e alguns diálogos não permitem que ela ganhe a grandeza e o significado atroz esperados. A cena de um homem que resolve ir embora e abandonar uma mulher é de uma força incrível, mas alguns momentos dão à platéia uma sensação de ridículo, que não combina com o tom da peça. Entretanto, a cena final é de uma intensidade tão corajosa que é impossível não rememorá-la. Um homem, com um arame farpado, anda em torno de uma mulher parada. Ele discorre sobre sua arte, e como adquiriu tamanha maestria ao exercê-la que hoje é capaz de viver apenas do lucro, sem necessitar de outras atividades paralelas. Ele descobriu como colocar em uma tela as matizes mais lindas e intensas, capazes de fazer vibrar até mesmo o homem mais insensível. E ele consegue essas lindas cores aplicando eletrochoques cruéis em vítimas diversas. Em uma cena de horror metonímico, na qual a crueldade vem da maneira como o protagonista discorre sobre as pequenas particularidades de cada choque e quais regiões do corpo produzem determinadas cores, a platéia não consegue olhar para outro lugar que não o palco. Não consegue visualizar algo tão macabro quanto aquele homem que discorre sobre tortura com cinismo, e a moça tremendo prestes a ser tocada pelo eletrodo.

Se existe algum lugar melhor em São Paulo do que Praça Roosevelt para se entupir de teatro de qualidade, ainda não me contaram.

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Bombando como sempre, o Satyrianas trouxe muita gente para a Praça Roosevelt na noite de ontem. Fui até lá conferir a peça Não Contém Glúteos, da Olaria Grandes Bosta. Apesar de alguns erros de performance e improvisos não tão bem sucedidos, a peça é extremamente criativa (com esquetes humorísticos que ironizam temas diversos, como O Pequeno Príncipe, Star Wars, jogos de videogame, Pequena Miss Sunshine e o status atribuído à obra de arte – em um ótimo embate entre O Grito, de Edward Munch, A Monalisa, de Leonardo da Vinci e Lavrador de Café, de Cândido Portinari), e a intenção de esquematizar o ritmo cênico por meio de esquetes funciona muito bem. A recepção dos presentes foi muito boa, o que mostra que a Olaria GB tem mesmo muito talento para arrancar risos, além de saber dialogar com o público. Muitas das referências da peça são feitas com o intuito de fazer com que o público sinta-se participante do ambiente cênico, e outras são específicas do dia no qual a peça acontece – ontem, muitas piadas envolviam o próprio evento, o Satyrianas, e outros acontecimentos recentes, como a pontuação do Corinthians no campeonato.

A peça é repleta de momentos muito divertidos, mas alguns esquetes realmente não funcionaram da maneira esperada. Um deles, que envolve uma briga de casal, não arranca tantos risos da platéia, embora esteja longe de ser desinteressante. O do Pequeno Príncipe também pecou em vários momentos, não só por algumas piadas sobre homossexualismo que não soaram tão engraçadas assim (não porque ficaram preconceituosas, e sim porque eram previsíveis) como por alguns errinhos dos atores.

Mesmo com esses tropeços, a peça é deliciosa de assistir. Nas próximas apresentações, a tendência é que ela melhore bastante, já que todo mundo estará mais preparado – afinal, é apenas a segunda vez que Não Contém Glúteos é encenada. E, considerando que a Olaria não tem patrocínio e acumula todas as tarefas possíveis – dirigir, atuar, escrever o roteiro, arrumar o figurino, divulgar, etc -, é ainda mais importante conferir um trabalho feito com muito esforço e bem longe do “teatrão”. A peça estará em cartaz até 12 de dezembro, toda sexta-feira à meia noite no Espaço Parlapatões.

Para quem for no Satyrianas hoje e amanhã, atenção: os ingressos começam a ser vendidos uma hora antes de cada espetáculo, e o esquema é pagar o quanto quiser – pode ser cinco centavos, 20 reais ou nada mesmo. Mas precisa chegar antes, porque os espetáculos esgotam bem rápido. Aliás, a cerveja também costuma terminar cedo, então não demore muito…

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Domingo. Praça Roosevelt. Ás 20h30, em ponto, tocou o sinal do Espaço dos Satyros – a partir do corredor estreito, com figuras vestidas em hábitos religiosos, muito incenso e canções sacras, começava Álbum de Família, montagem da Cia. Profana de Teatro a partir do texto homônimo de Nelson Rodrigues.

Jonas e Senhorinha possuem um relacionamento complicado, evidenciado pela tensão constante entre os dois personagens, que praticamente não se olham, falando para o vazio – vazio este que não é preenchido nem mesmo pelo espectador, já que os atores parecem mirar um além público, uma instância teatral inexistente no pequeno espaço do Satyros 1.

A tragédia inerente ao universo familiar, característica marcante na obra de Nelson Rodrigues, é bem retratada pela montagem, que evidencia o ódio, o amor e o desejo reprimido que permeiam as relações entre Jonas, Senhorinha, Ruth e os filhos Guilherme, Edmundo, Nonô e Glória. Entretanto, alguns elementos da peça não se adequam ao universo rodrigueano – marcadamente, a interpretação forçada do personagem de Jonas, que parece estar sempre declamando ou falando com dificuldade um discurso já pronto, e a estranha movimentação dos atores em cena, que em muitos momentos balançam o corpo conforme dizem suas falas.

Outra característica que percebi na peça é, na verdade, algo constante nas atuais montagens de Nelson Rodrigues – o medo do silêncio. Tanto em Vestido de Noiva (montagem dos Satyros com Cléo de Paris como Alaíde e Helena Ignez como Madame Clessi) quanto em Álbum de Família, a trilha sonora é onipresente, marcante, propositalmente climática. É como se a peça não pudesse respirar, deixar o silêncio dos personagens – e do próprio texto – tomar conta do teatro e dos espectadores. Embora tenha gostado muito da trilha sonora de Vestido de Noiva, que reunia músicas de David Bowie, Antony & The Johnsons, Radiohead e Bjork (a utilização da música Bachelorette, para marcar a transição entre o casamento de Alaíde e o de Lúcia, é emocionante), a trilha de Álbum de Família não me pareceu tão adequada. O paradoxo criado pela justaposição de músicas sacras e This is The New Shit, de Marilyn Manson, por exemplo, tem uma intenção subversiva interessante, mas que não se sustenta tão bem porque as cenas em questão seriam mais impactantes se ocorressem em silêncio – o silêncio da violência, que pode ser muito mais assustador do que qualquer música. Na cena em que a Madre Superiora descobre o relacionamento íntimo entre Glória e Thereza, por exemplo, começa um trecho da música The Kinslayer, do Nightwish, simbolizando a proibição do ato das garotas dentro do contexto religioso no qual se encontravam. Entretanto, a cena não ganha dramaticidade devido à música, já que o momento em si era forte o suficiente para falar por si próprio. Me parece que a intenção da Cia. Profana de Teatro é a mesma de Ivam Cabral em Vestido de Noiva – atualizar e, principalmente, universalizar a obra de Nelson Rodrigues, utilizando elementos contemporâneos que transcendam a atmosfera carioca do texto original. Mas Álbum de Família não consegue alcançar essa transcendência cênica esperada – embora A Cia. Profana de Teatro se arrisque em adaptar uma peça tão complexa e naturalmente profana.

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