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Archive for the ‘Livros’ Category

Todo mundo tem seus tiques e suas idiossincrasias. Escritores não são exceções. Olha só o depoimento que o Marçal Aquino, autor de Eu Receberia As Piores Notícias de Seus Lindos Lábios, deu para o blog do Michel Laub:

“Escrevo literatura exclusivamente a mão, em cadernos tipo universitário, com caneta macia. Gosto da frase do Kureishi: ‘Escrevo com pau duro e caneta de ponta mole, e não o contrário’. Acho que é por aí. Se houver música, será instrumental, que letras atrapalham nessa hora. O ideal é que eu esteja sozinho e disponha do tempo que precisar, nem que seja uma ilusão.”

A dica foi do @rbressane

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1. Provavelmente todo mundo ficou sabendo do ataque pirata à uma embarcação na Somália. As manchetes nos jornais e da Internet são, no mínimo, curiosos, porque parecem estar falando de um capítulo de Piratas do Caribe. O Uol, ontem a noite, tinha na capa a manchete “Piratas atiram em navios da Marinha Americana”. Por mais que a gente tente não deixar engraçado, falar de piratas, roubo de navios e marinha americana é uma daquelas situações que o fait-diver fala por si próprio…

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motomix2008

2. O Lúcio Ribeiro deu a entender em seu blog que não vai ter Motomix este ano, o ótimo festival gratuito que trouxe no ano passado atrações como The Go Team!, Metric e Fujiya & Myagi para o Ibirapuera. Curiosamente, entretanto, o evento já tem site oficial, e algumas fontes afirmam que o festival vem com tudo em 2009. Será? Porque estamos precisando, principalmente depois do fim do Tim Festival

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catpoweragoodwoman

3. Descobri ontem que a jornalista Elizabeth Goodman escreveu uma biografia da Cat Power. O livro, chamado Cat Power: A Good Woman, foi difícil de escrever, já que a cantora não colaborou tanto quanto a jornalista esperava. Em entrevista, afirmou que esperava que Chan Marshall, exatamente por expressar em suas músicas suas frustrações e tristezas de maneira tão franca, seria igualmente eloquente em seus depoimentos para o livro. Engano óbvio – tão óbvio, aliás, que me faz pensar como uma jornalista experiente possa ter acreditado que sua fonte concordaria tão facilmente em ser personagem de repente. Porque jornalista costuma saber muito bem que personagem ideal para perfis e biografias é personagem morto. Quando eu ler o livro, falo mais.

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4. Voltando pro Radiohead, dou a dica para quem quiser ver algo incrível: procurem no Youtube – não vou colocar os links para não apagarem – a apresentação Live in The Basement, que reúne interpretações incríveis de Videotape, 15 Steps, Bodysnatchers, The Gloaming, Last Flowers (do álbum extra do In Rainbows), All I Need, entre outras. Tem até Thom Yorke interpretando Analyse, de seu álbum solo The Eraser. Lindo.

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franzferdinand

5. Muita gente já fez cover de Womanizer, da Britney: Lily Allen, Ladyhawke, All American Rejects, etc. Agora o Franz Ferdinand entrou na onda – mas não devia, porque ficou horrível. Nem consigo dar risada com essa versão, porque mal dá pra ouvir até o fim. Fico mesmo com Lily Allen (que em uma de suas últimas apresentações chamou Lindsay Lohan pro palco cantar Womanizer com ela) e Ladywahke (que deixou a música de Britney mais misteriosa e chique).

Só cinco hoje =)

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A lista de melhores de 2008 do Nude as The News reflete o que foi o ano de 2008 para mim em termos culturais. Obviamente, é uma seleção parcial e pessoal, mas tentei ao máximo justificar e argumentar todas as minhas escolhas. Adições e discordâncias são sempre bem-vindas.

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Melhores filmes – Este foi o ano em que eu fui menos ao cinema, por total falta de tempo e excesso de trabalho. Mesmo assim, entre os que consegui assistir, escolhi Batman – The Dark Night, Vicky Cristina Barcelona, A Última Amante (o filme é de 2007, mas incluo porque só o vi este ano, No Panorama do Cinema Francês), Wall-E (uma das coisas mais lindas que vi em 2008, com certeza), No Country For Old Men, Still Life e Onde Andará Dulce Veiga. Provavelmente esqueci de vários, então, acrescentarei conforme minha memória precária permitir. As menções honrosas vão para A Questão Humana, filme lindíssimo que só não é perfeito por ser arrastado demais em algumas cenas; Advogado do Terror, que tem um protagonista sensacional mas se perde ao tentar situar o espectador em uma situação geopolítica por demais complexa; e Juno, delicioso de assistir e atrevido, mas estranho em algumas escolhas do roteiro, como o súbito interesse de Mark por Juno.

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Melhores livros – Como costumo ler o que me passa pela cabeça sem distinção, ou títulos específicos para poder escrever uma matéria, dificilmente leio lançamentos ou best-sellers – algo que preciso começar a fazer com mais frequência. Então, listo os livros que li este ano, independentemente do ano de lançamento: Homens do Amanhã, da Conrad, sobre o nascimento dos quadrinhos de super-heróis nos EUA; Outras Inquisições, de Jorge Luis Borges; Sanditon, obra inacabada de Jane Austen; Harry Potter e as Relíquias da Morte, por terminar de maneira razoável a saga dos personagens de Hogwarts; e as histórias completas de Sherlock Holmes, que saíram agora em edição de luxo ilustrada (OK, impossível de comprar, mas, mesmo assim…).

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Quadrinhos – Mesmo já tendo falado tudo que devia sobre a Turma da Mônica Jovem e criticado a vontade, não posso negar que a série foi o fenômeno das HQs brasileiras este ano. E, como a série ainda está no volume 4, pode ser que melhore. Outros lançamentos ótimos são o Prontuário 666, sobre os 40 anos que Zé do Caixão passou na prisão; o lançamento de três livros dos quadrinhos de Calvin & Haroldo, Criaturas Bizarras de Outro Planeta, Tem Alguma Coisa Babando Embaixo da Cama e Yukon-Ho!; e A Força da Vida, de Will Eisner. Deixei de fora inúmeros títulos, mais uma vez por ter tido pouco tempo de ler até mesmo quadrinhos este ano, exceto tudo o que foi lançado no Brasil do Robert Crumb.

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Melhores músicas/álbuns – É óbvio que eu começo com o sublime Jukebox, da Cat Power, enriquecido agora com o EP Dark End of The Street. Continuo com Tell Tale Signs, de Bob Dylan; Vampire Weekend, da banda homônima, um álbum divertidíssimo; Með suð í eyrum við spilum endalaust, do Sigur Rós; Fleet Foxes, da banda homônima; One Kind Favor, o retorno triunfal de B.B King; Dig, Lazarus, Dig!!!, do Nick Cave & The Bad Seeds; e Third, do Portishead. Aguardo ansiosamente, agora, os novos do Bat For Lashes e do Antony & The Johnsons.

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Teatro – O principal destaque veio esses dias: 120 Dias de Sodoma, dos Satyros. Destaque também para: Senhora dos Afogados, de Antunes Filho; Vestido de Noiva, também do Satyros; e Educação Sentimental do Vampiro.

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Shows – O destaque do ano foi o show mais animado que já testemunhei: Foals, no palco indie do Planeta Terra. Música para morrer de tanto pular, som ensurdecedor e animação total. No palco, são fora de série. O álbum também é bom, mas dá uma saudade enorme do que é poder ouvir ao vivo. Para 2009, estou morrendo para ver o Radiohead. E torcendo para as vindas de Bat For Lashes, Sigur Ros, Cat Power e, já que é para sonhar, volta Bob Dylan, volta!

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Em um dos volumes de The Conversation Series, o crítico de arte Hans Ulrich Obrist entrevistou o quadrinista Robert Crumb, que criou, entre outros, os personagens Mr. Natural – sátira da geração hippie -, Fritz the Cat e Flakey Foont. Crumb, mesmo a contragosto, tornou-se não só um ícone da contracultura americana dos anos 1960 como o precursor dos chamados “underground comix”, quadrinhos alternativos que surgiram como uma resposta à tradição das HQ’s dos anos 1950 e a partir de um contexto histórico dominado pela reação ao conservadorismo e simbolizado pelo movimento da luta dos direitos civis.

Crumb tornou-se uma paixão – não por acaso, é o tema de meu TCC, trabalho de conclusão de curso de Jornalismo. Crumb é genial não só pelo traço e estilo únicos, como pela maneira como explora temáticas como a contracultura (continuamente satirizada), conflitos raciais, convenções sociais e suas próprios neuroses. Crumb é um egocêntrico, um polemista, uma figura a parte – curiosamente, essa imagem é, ao mesmo tempo, o mito e a realidade. Essa ambiguidade é uma das coisas mais intrigantes na obra de Crumb – além de, é claro, sua deliciosa cara de pau de escrever e desenhar qualquer coisa.

crumb

Na pequena entrevista feita por Hans Ulrich Obrist, Crumb fala de sua obsessão por colecionar vinis – em especial obras de blues, tema que rendeu uma série de quadrinhos maravilhosa, lançada no Brasil pela Conrad -, do porque atualmente mora em uma cidadezinha interiorana na França, de sua relação com seus personagens antigos e até mesmo de arquitetura. É um convite para conhecer mais da obra de Crumb, embora o livro não traga grandes novidades sobre sua figura e suas idiossincrasias.

Neste pequeno vídeo, Crumb fala de um de seus desenhos mais comentados – a capa do álbum Cheap Thrills, de Janis Joplin.

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Para editar um texto da próxima edição do Site de Cultura Geral, consultei um livro que acabei lendo na íntegra. Isso acontece muito com pessoas viciadas em leitura – pegamos um livro para consultar um dado específico e acabamos lendo tudo. Às vezes com a desculpa de que é necessário ler tudo para adquirir uma compreensão melhor do que se escreve, às vezes assumindo que leio tanto porque sou viciada mesmo, a questão é que não consigo parar. Toda vez que vou editar um texto e não conheço o livro, preciso ir atrás e descobrir do que se trata. Vou no Google, fatalmente vou parar na Wikipedia, mas não consigo ficar satisfeita. Preciso ler. O pior é que normalmente o processo continua: se gosto do livro, começo a ir atrás de referências, obras relacionadas… não acaba nunca.

Logo logo meu sonho de vida será o mesmo do episódio Time Enough at Last, do seriado Além da Imaginação: ter todo o tempo disponível, dia e noite, só para ler. Poesia, crônicas, conto, prosa… daí, obviamente, terei o mesmo destino que ele: meus óculos vão quebrar, não existirá ninguém capaz de consertá-los, e eu vou olhar para os volumes de Shakespare chorando alucinadamente por toda a eternidade.

Hoje, devido a essa obsessão, acabei lendo Fausto Zero, primeira versão inacabada do livro Fausto, de Goethe. Escrita entre 1773 e 1775, a obra teve seu manuscrito destruído pelo próprio Goethe, e só chegou ao público porque uma amiga do escritor, Luise von Göchhauser, copiou o texto. Nunca li Fausto, então acho que acabou sendo mais coerente mesmo começar pelo manuscrito antes de ler a versão definitiva.

Fausto Zero foi escrito na época do pré-romantismo alemão, e a linguagem da obra é simples, direta e muito próxima do leitor, que se sente convidado a fazer parte do pacto maldito entre Fausto e Mefistófeles. Os momentos de ironia, entretanto, acabam sendo mais marcantesdo que os trágicos – a maneira pela qual Mefistófeles zomba da profissão de cientista e do status normalmente concedido á razão é muito irônica, e ainocência do jovem estudante seduzido pelo diabo acaba sendo mais risível do que triste. E, ao contrário da fama atribuída à obra definitiva, Fausto Zero é delicioso de ler, e nem um pouco hermético.

Uma característica curiosa do manuscrito é que não existe a famosa cena do pacto entre Fausto e Mefistófeles. De acordo com o prefácio da tradutora Christine Röhrig, existem duas possibilidades para esta ausência: segundo uma delas, na época em que Goethe escreveu Fausto Zero, um teatro de fantoches que contava a história história de como Fausto vendeu sua alma circulava por toda a Alemanha, então todos os leitores da obra teriam como pressuposto que houve de fato um pacto. A outra versão – que eu pessoalmente gosto mais – é a de que Goethe simplesmente considerou que não havia necessidade de formalizar com uma cena específica o pacto de Fausto com Mefistófeles, se divertindo com essa escassez de explicações longas e partindo logo para as questões centrais da obra.

Aliás, a linguagem direta de Fausto Zero – que, segundo a tradutora, era realmente voltada para o povo, sem rebuscamentos desnecessários – chega a surpreender o leitor. Para entende risso, não existe trecho melhor do que o momento em que começa o interesse de Fausto por Margarida. Ele começa filosofando. Daí para frente…

Fausto: Que moça mais linda e formosa,
Tocou forte o meu ser,
Parece tão boa e virtuosa,
Mas tem um quê de impertinente também.
O vermelho dos lábios, o brilho na face
Jamais poderei esquecer.
Seu jeito de pestanejar,
Impregnou o meu coração.
Seu jeito de querer fugir logo,
Aumenta ainda mais o meu fogo.

[Entra Mefistófeles]

Fausto: Escuta, precisas conseguir essa putinha para mim!”

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Ontem terminei de ler Fervor de Buenos Aires, livro de poemas escrito por Borges em 1923 e o início da minha jornada em busca da compreensão borgeana. Nas Obras Completas, o escritor rememora no prólogo, que data de 1969, como foi escrever o livro e quais seus sentimentos a respeito dos poemas que escrevera há tanto tempo – e que descreviam o reencontro de uma Buenas Aires fantasmagórica, linda e melancólica. “Naquele tempo, procurava os entardeceres, os arrabaldes e a desdita; agora, as manhãs, o centro e a serenidade”. Para Borges, Fervor de Buenos Aires “prefigura tudo o que faria depois”. Tentou cantar uma Buenos Aires perdida, “de casas baixas e, para o poente ou para o sul, de chácaras gradeadas

Borges me fez gostar de poesia. De uma maneira tão intensa que não consigo mais imaginar como antes não me sentia emocionada por versos. Talvez tenha me apaixonado apenas pela poesia de Borges, e não pela poesia em geral – mas essa dúvida fica para depois. O que importa é que Borges, nestes poemas simples e sucintos, tenta reconhecer em Buenos Aires a cidade amada que deixara para trás. Em La Recoleta, rememora em um cemitério as lembranças dos antepassados e das estátuas de mármore que se erguem imponentes e solitárias, em um local que simboliza uma morte que não se apaga; em O Truco, por meio da metáfora das cartas, traz uma Buenos Aires que mantém características fugazes de seus dias antigos; em Rosas, como diz nas notas do final do livro, mostra sua “selvageria unitária” ao relembrar o nome maldito de um déspota, cujos crimes nunca serão passíveis de remissão; em Caminhada se entristece por ser, aparentemente, o único espectador de uma beleza das ruas que hoje está perdida; em As Ruas, declara sua simbiose e sua paixão pelas “ruas entediadas do bairro, quase invisíveis de tão habituais, enternecidas de penumbra de de ocaso” e em A Volta, narra a tristeza de saber que as memórias há muito deixadas de lado só podem ser resgatadas pelo hábito, e lamenta quanto tempo terá que esperar para que novamente possa ver Buenos Aires como seu lar.

Um livro de memória. De tentativas – melancólicas – de rememoração. E um sentimento de morte ao ver tudo aquilo que amou desaparecer com vagar, mas talvez para sempre.

Agora, é a vez de Lua Defronte, de 1925. Agradeço às pessoas que, por conhecerem bem Buenos Aires, estão tentando me descrever o porque do amor de Borges pela cidade, suas ruas e suas praças.

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Ontem, 28 de outubro de 2008, comecei um projeto ambicioso: ler Borges. Tudo. A obra inteirinha. Até agora, só tinha lido O Aleph e Outras Inquisições – e me encantado com cada frase linda e cada sentença destas duas obras. Resolvi me aventurar, mesmo sem tempo, sem condições físicas (o sono é cada vez pior) e sem perspectivas. Porque é Borges. É difícil resumir em palavras como ler as obras de Borges é uma experiência única. Vou tentar fazer isso com as palavras do próprio, a partir do que comecei a ler ontem. Para isso, uso três momentos lindos: o pequeno aviso ao leitor que Borges coloca no início do primeiro volume de suas obras completas; e os poemas O Sul e La Recoleta, tirados de Fervor de Buenos Aires.

A Quem Ler

“Se as páginas deste livro consentem algum verso feliz, perdoe-me o leitor a descortesia de tè-lo usurpado eu, previamente. Nossos nadas pouco diferem; é trivial e fortuita a circunstância de que sejas tu o leitor destes exercícios, e eu seu redator”

La Recoleta

Convencidos de tanta caducidade
por tantas nobres certezas do pó,
demoramos e baixamos a voz
entre as lentas filas de panteões,
cuja retórica de sombra e de mármore
promete ou prefigura a desejável
dignidade de ter morrido.
Belos são os sepulcros,
os desnudo latim e as petrificadas datas fatais,
e a conjunção do mármore e da flor
e as pracinhas com frescor de pátio
e os muitos ontens da história
hoje detida e única.
Confundimos essa paz com a morte
e cremos anelar nosso fim
e anelamos o sonho e a indiferença.
Vibrante nas espadas e na paixão
e adormecida na hera,
só a vida existe.
O espaço e o tempo são formas suas,
são instrumentos mágicos da alma,
e quando esta se apague,
se apagarão com ela o espaço, o tempo e a morte,
como ao cessar a luz
caduca o simulacro dos espelhos
que a tarde já foi apagando.
Sombra benigna das árvores,
vento com pássaros que sobre as ramas ondeia,
alma que se dispersa em outras almas,
fora um milagre que alguma vez deixaram de ser,
milagre incompreensível,
embora sua imaginária repetição
infame com horror nosso dias.
Estas coisas pensei em la Recoleta,
no lugar de minha cinza.

Esse poema é tão, mas tão lindo, que foi capaz de me alienar do mundo por muito tempo. Não mais via as pessoas ao meu redor, muito menos pensava no que teria que fazer no dia seguinte ou quantos textos precisavam estar prontos na sexta-feira. Abstração total. Poesia é uma forma de expressão que raramente me emociona. Posso achar muito bonito, até tocante, mas dificilmente me sinto realmente emocionada, como frequentemente acontece com prosa. Já com Borges… a sensação é a de que estou lendo algo que contém uma essência perdida que sou incapaz de sorver, incapaz de compreender. É como se todo tipo de compreensão do mundo fosse ilusória, mágica demais para existir – e, ao ler Borges, alguns desses fragmentos de existência brilham por momentos fugazes. Quem mais consegue fazer um poema no qual o narrador olha para o simulacro da morte a partir da lembrança das próprias cinzas?

O Sul

De um dos pátios ter olhado
as antigas estrelas,
do banco da
sombra ter olhado
essas luzes dispersas
que minha ignorância não aprendeu a nomear
nem a ordenar em constelações,
ter sentido o círculo da água
na escreta cisterna,
o odor do jasmin e da madressilva,
o silêncio do pássaro adormecido,
o arco do saguão, a umidade
– essas coisas são, talvez, o poema.

Quer melhor definição de poesia?

E os fragmentos de Borges continuam…

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