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A reportagem de capa da Rolling Stone deste mês chegou atrasada – afinal, a Billboard já tinha colocado a máquina poderosíssima do Black Eyed Peas na capa com uma reportagem extensa sobre o entrelaçamento entre comércio e música responsável pelo sucesso do grupo.

Mas a matéria da RS tem um trecho que define muito bem não só a lógica do sucesso do Black Eyed Peas como toda a mercadologia que faz com que não consigamos mais distinguir as fronteiras que separam a música do jingle, a canção da publicidade descarada.

Com vocês, a descrição de uma discotecagem de Will.i.am – amém, David Guetta e Tiesto. Vocês venceram.

Entre luzes piscantes e batidas insistentes, Will.i.am instala um Macbook e uma interface retangular com alavancas e botões iluminados. Enquanto a multidão berra, ele coloca um par de fones de ouvido cor de laranja e pega um microfone. “Yo, Houuuuuuuuuuston!”, ele incita, desencadeando um acorde de sintetizador orquestral e cheio de drama de um disco de David Guetta. “Todo mundo ertá pronto para arrasar?”. Ele faz um trejeito com a mão e coloca para tocar uma batida intensa, então dá início a uma performance ao vivo de rap, canto e cross-fading entre quatro canais em um sistema que ele chama de “iTunes com estereoides”.

Sad Piano

E a boa para esta tarde chuvosa é Sad Piano, do novo álbum da cantora Cibelle, Las Venus Resort Palace Hotel.

OK, todo mundo sabe que é saudável não se levar a sério e ter senso de humor suficiente para rir das próprias gafes e burradas. Não se levar a sério é bom porque promove a crítica e, principalmente, a autocrítica. Mas, em música, essa atitude de “não me levo a sério, juntei aí uns amigos na garagem lá de casa pra fazer um som e saiu a banda” me incomoda, e incomoda muito.

Primeiro porque é falácia – 90% das bandas que dizem que não têm muita noção do que fazem e que não curtem se levar a sério porque isso é coisa de gente prepotente confundem despreocupação com displicência. Segundo porque ser ambicioso não é algo ruim. Tudo bem que quanto maior a pretensão maior o tombo se der errado, mas querer fazer um álbum foda é algo incrível, louvável, corajoso. Esse discurso babaca de “ah, a gente foi juntando as composições aos pouquinhos e fizemos na boa, sem muita pretensão, só gravando para a gente e nossos amigos” é, oi, CHATO. Pelo amor de deus, coloca o seu na reta, assume o risco de fazer algo fodão, mesmo que dê barbaramente errado. Quer dizer: se der errado, ah, a gente só fez para nossos amigos, e foi só uma tentativa pequena, nosso verdadeiro álbum ainda vem por aí. Agora, se por acaso dá certo, são os novos gênios da música.

Falar que a sua banda não se leva a sério é uma maneira bem fácil de não ser cobrado por resultados e de não precisar ter a coragem de dar a cara a tapa para as críticas (que virão) e para o público (que nem de longe é estúpido). Se o seu negócio é misturar axé com samba com dancehall com grindcore, amigo, abraça o capeta e se joga no inferno. Acredite no que você está fazendo, coloque seu coração nisso, para o bem e para o mal. Porque daí o resultado vai ser sincero, o que por si só já é um avanço para a cena musical. Pode ser uma merda, mas é um risco que todo mundo que se joga de cabeça nas coisas corre. Todo mundo que é apaixonado por alguma coisa e que se joga sem medo em projetos arriscados (e assume que, sim, está tentando fazer algo fora de série) cedo ou tarde vai virar motivo de piada. E daí? Toca o foda-se e faz o que te der na telha. Quem sabe assim essa chatice de “ai, sabe, nunca quis fazer nada demais, sempre quis fazer algo só pra mim” acabe de vez. Que eu saiba, quando alguém quer fazer algo APENAS para si próprio, é bem simples: grava aí no seu PC, mostra pros seus amigos e deixa quieto. Colocou para todo mundo? Então aguenta o tranco.

Mas é óbvio que essa história, como todas as outras, não tem só esse tópico a ser discutido. Algumas vezes esse discurso de “não sabia o que estava fazendo” é verdade mesmo – ou porque a banda ainda não tem noção do que faz por falta de estrada e experiência na indústria musical ou porque é um meme criado por produtores e figurões das gravadoras, por exemplo. Daí é outra história, embora seja igualmente complicada e envolva muitas pessoas.

Mas o resumo da ópera é o mesmo: talvez seja a hora de parar com esse discurso de “é tudo sem querer, nós não nos levamos a sério”. Vai esperar até quando então para colocar a cara a tapa?

Nada melhor do que Bill Callahan para fazer a gente parar e ouvir

A quantidade de álbuns que vazam toda semana é absurda. Nos últimos dias, tudo resolveu surgir ao mesmo tempo: The National, Crystal Castles, The New Pornographers, Jamie Lidell, Foals, Hold Steady, Black Keys, Gogol Bordello… muita, muita coisa. Daí vem aquela questão: ninguém vive de brisa e de ficar ouvindo música e suspirando pelas faixas mais bonitas. A gente trampa (e muito), fala no msn, liga pra cá, liga pra lá, resolve problemas, etc. E, enquanto faz tudo isso, vai ouvindo música da maneira que dá. Aposto que muita coisa que você ouviu durante o trampo nem fica gravado na sua memória – vai pro lixo como se fosse um álbum inédito.

Acho uma caretice do caralho esse povo que fica falando que o mundo moderno é fútil e todas as coisas são efêmeras – e que a rapidez necessariamente é uma coisa do demônio. Eu amo uma adrenalina, adoro as coisas rápidas, fugazes, e não acho que desacelerar seja uma coisa obrigatoriamente boa. Calma lá, caso contrário vira chatice politicamente correta. Mas uma coisa é verdade: essa mania de tentar otimizar o tempo fazendo absolutamente tudo na mesma hora faz com que ouvir música seja só uma desculpa pra ficar de fone de ouvido. Porque não dá para prestar atenção em tudo ao mesmo tempo, e música não pode ficar em segundo plano.

Daí que eu me pergunto: a gente ouve tudo na pressa. Correndo, fazendo um milhão de coisas. E existem tantos álbuns na fila que ouvimos no máximo uma vez cada um deles. Ou seja, tudo fica superficial, volúvel, e não em um bom sentido.

A pergunta que fica na minha cabeça é: como ficarão esses álbuns que achamos lindos (e, claro, os que achamos sofríveis) quando forem ouvidos na janela, de tardinha, em um dia de folga, com tempo de sobra e um cigarro na mão? Será que não vale tentar antes de fazer uma resenha baseada em duas ouvidinhas rápidas?

Música é uma coisa que cresce. Mas pede tempo, e bastante…

Tirei a imagem daqui.

O show de ontem (17) no Credicard Hall encerrou a terceira passagem do Placebo pelo Brasil. Foi um show complexo de analisar, por vários motivos: para começar, a banda tem uma carreira longa, que soma 16 anos, seis álbuns e muitas brigas entre Brian Molko e Stefan Olsdan. Por cinco álbuns, o Placebo permaneceu o mesmo, sombrio, obscuro. Mas em sua última empreitada, Battle For The Sun, o grupo seguiu o caminho da luz e fez um álbum ensolarado, otimista, mostrando que o futuro da banda pode ser diferente. Por esse fator, a nova turnê do grupo precisa ser analisada sob a perspectiva dessa mudança, e ver até que ponto essa expectativa se cumpre quando o Placebo está em cima do palco encarando seus antigos fãs frente a frente.

E aí vem o problema: não, a turnê não convence. Não, o show não é criativo. Mas, sim, a banda é muito boa. Seria uma injustiça sem tamanho dizer que Brian Molko, Stefan Olsdan e Steve Forrest não sabem o que estão fazendo em cima do palco. Ah, eles sabem, e muito bem, como a plateia do Credicard Hall presenciou. E exatamente por isso é preciso cobrar mais: depois de 16 anos, o Placebo quis se reinventar. Mas fez isso sem criatividade e ficou com cara de banda velha, datada. E músicos tão absurdamente competentes, como mostraram ser, conseguem fazer bem melhor do que isso.

Segue abaixo a resenha que fiz do show para o Portal Virgula:

Estar apaixonado é uma experiência indescritível. Os sentidos começam a nos enganar, o raciocínio fica para lá de relativo e as coisas deixam de fazer sentido. Esse estado de êxtase caracteriza com precisão não só a relação entre o apaixonado e a pessoa amada como é uma metáfora perfeita para o caso de amor entre o Placebo e os fãs da banda inglesa – as letras atormentadas e a atmosfera soturna da parceria criada por Brian Molko e Stefan Olsdan foram a paixão de inúmeros fãs encantados pela música dark do grupo.

O grupo, que tem seis álbuns na bagagem, desembarcou no Brasil esta semana com a turnê de divulgação de seu trabalho mais recente, Battle For The Sun. E, assim como o álbum representou o ocaso da paixão intensa dos fãs mais radicais em relação ao grupo, a turnê do trabalho menos melancólico dos ingleses traz um gostinho amargo de decepção: por mais que tudo pareça perfeito, a relação chegou naquele ponto em que o amor absoluto deu lugar a uma saudade – e a vontade irresistível de seguir em frente.

Acompanhados por Fiona Brice (violino, teclado, theremin e vocais de apoio), Nick Gavrilovic (teclado, guitarra e vocais de apoio) e Bill Lloyd (baixo e teclado), o vocalista Brian Molko, o baixista Stefan Olsdan e o novo baterista Steve Forrest entraram no palco exatamente às 22h com For What It’s Worth, primeiro single do álbum Battle for The Sun.

É inegável o talento do Placebo em cima do palco – após uma parceria que já dura 16 anos, Brian Molko e Stefan Olsdan não precisam mais nem ensaiar seus passos e seus acordes, de tão instantânea que parece a compreensão entre suas performances. Tecnicamente, tudo perfeito: o setlist, que equilibra novas músicas, como The Never-Ending Why e Ashtray Heart, com hits assobiáveis como Every You Every Me, Meds e Come Undone, a presença de palco dos músicos, que sabem muito bem o que estão fazendo, a reação do público, que não parava de gritar e pular ensandecido… tudo apontava para um show incrível.

Então, por que tudo parecia tão mediano? E a paixão, o amor, o deslumbre com todas as músicas climáticas e emocionantes que caracterizavam o Placebo? Não é uma questão de envelhecer bem ou mal, porque o grupo comprovou que é possível continuar junto após 16 anos de estrada tocando com a mesma técnica. É a ausência da criatividade que faz com que o show da nova turnê seja apenas mediano. Battle For The Sun é um álbum que soa muito mais otimista do que a carreira anterior do Placebo, e esse é o diferencial do CD. Mas, no palco, tudo parece mais do mesmo – e a inovação que é anunciada nos estúdios não é cumprida nos palcos.

Por sorte, Brian Molko e Stefan Olsdan conseguiram comandar a pequena plateia do Credicard Hall (provavelmente devido aos preços abusivos, a Pista Premium do show estava quase vazia) com maestria, usando e abusando das guitarras e da bateria de Steve Forrest (que, aliás, merece aplausos por sua apresentação irretocável). Infelizmente, a acústica da casa não ajudou, sem contar que no começo do show era muito difícil ouvir a voz de Brian Molko, que se perdia em meio aos demais instrumentos.

A plateia do Credicard Hall saiu satisfeita após uma hora e meia de um show correto e sem surpresas, que evidenciou dois fatores: a capacidade inegável dos músicos do Placebo na hora de fazer boa música e o perigo de se investir em um futuro sem inovações. Se o Placebo não trouxer aos palcos uma turnê que consiga driblar a nostalgia e a vontade de celebrar um passado que não vai retornar, o perigo continua lá – a transformação de uma banda ícone de uma época em um dinossauro que vai para sempre ficar no armário dos CDs velhos. E, como todo mundo sabe, a gente só continua amando aqueles que conseguem despertar a mesma paixão em qualquer época.

Vamos brincar de comparar, gente?

Olha só a música Good Clean Fun, da Cat Power, e D7, cover do Nirvana para a faixa do The Wipers.

Quem diria?

Elas fumam

Quando o objetivo é escrever sobre música, não adianta gostar. Não adianta nem mesmo amar – paixão é algo muito importante, sempre, é o combustível perfeito para ir além da vontade, mas não é o suficiente. Não basta curtir, não basta querer, não basta achar tudo muito lindo, muito inspirador e muito foda.

O problema real é que parece que nada basta. Parece que, quando se trata de música, qualquer tipo de análise é insuficiente – todas elas ficam a margem de algo mais difícil de definir, que é a aura da música, sua importância dentro de um determinado contexto e a longevidade de determinada obra. Como dar conta de tudo isso, como não ser injusto e dar a atenção necessária para cada música, cada álbum, cada single, cada conceito?

Não existe tempo suficiente para que leiamos tudo o que realmente importa, não dá para ouvir todos os álbuns do mundo, conhecer todas as influências citadas por esse ou aquele artista, não dá para tentar dar conta de uma completude que é muito maior do que qualquer texto que façamos. O mundo não cabe em uma garrafa – mas a gente sempre tenta prender aquilo que resenhamos dentro de um conceito ou uma expressão inteligente.

É óbvio que é esse o nosso trabalho. Não dá para escapar, precisamos escrever, e não temos cinco anos para analisar cada álbum, checar cada influência e apontar tendências. É impossível fazer tudo, saber de tudo, ter lido tudo. E sempre que escrevemos um novo texto, sabemos que estamos diminuindo alguma coisa, cometendo algum tipo de injustiça ou até mesmo exagerando nos elogios (porque é muito comum nos depararmos cada semana com uma nova banda do coração, pode confessar).

E o gosto pessoal?

Não tem jeito – quando começamos a falar sobre música, escolhemos aquilo que gostamos. Vamos atrás do novo EP do Animal Collective, das faixas que já vazaram do novo álbum do The National, vamos surtar com a vinda do Jonathan Ritchman para o Brasil e escrever uma resenha gigantesca sobre, sei lá, o novo álbum do MGMT.

OK, você gosta disso tudo e de mais um monte de bandas alternativas que fazem um som que você considera relevante? Ótimo. Mas não dá para escrever sobre música falando sobre o que você e seus amiguinhos gostam e ignorar o resto. Não dá para ignorar o sucesso que bate na nossa porta, que está escancarado na nossa cara. Ou você realmente tem a soberba de achar que ignorar Roberto Carlos (ai, é brega) e Ivete Sangalo (é tudo marketing, tudo marketing), além de fenômenos mais imediatos, como as diversas bandas teen que mobilizam verdadeiras multidões para seus shows e pequenas aparições em rádios, vai fazer alguma diferença para o resto do mundo?

Não dá para criar um mundinho, escrever sobre ele, legitimá-lo e achar que o resto não existe. Mas a gente faz isso direto. Pior: fazemos na maior boa vontade, com as melhores intenções, achando que temos o direito de educar todo mundo e sair ditando o que se pode gostar ou não.

E precisamos fazer o contrário também – além de olharmos para o que está bombando no circuito comercial e prestarmos atenção no circuito alternativo, é preciso caçar aquilo que não aparece em lugar nenhum. Aquela banda obscura da Angola, aqueles caras que fazem rap na periferia de uma cidade perdida aqui no Brasil… aquele povo que não aparece no nosso dia-a-dia, mas que faz diferença.

E o repertório?

Essa, é, particularmente, uma das minhas maiores angústias: não tenho idade, não tenho repertório. Não vi o que devia ver, perdi tanta, tanta coisa. Não vi diversas bandas em seu auge, perdi shows históricos, não testemunhei o sucesso dos Beatles, o estouro dos Rolling Stones, não acompanhei a carreira de Roberto Carlos, não vi o auge do Pavement e do Blur.

E esse é o tipo de coisa que simplesmente não dá para recuperar. Não dá para correr atrás. Quando vou escrever um artigo sobre alguma banda, sempre me preparo, mesmo que já tenha ouvido tudo – esta semana, para um especial sobre o Nirvana, ouvi tudo de novo, resgatei diversos textos sobre o movimento grunge e entrei de cabeça em Mudhoney, Alice in Chains, Hole e Pearl Jam. Não queria deixar nada escapar, queria sentir tudo de novo, como se estivesse sentindo na época certa, na hora certa. Resolve? Óbvio que não. Ajuda pra caralho, mas resolver, não resolve.

Mas e aí? Vou deixar quieto e desistir de escrever sobre absolutamente tudo que não pude presenciar, que passou por mim? Não dá. É irreal, absurdo. Mas é importante sabermos que esse tipo de coisa não se resgata – exatamente para que, quando começarmos um texto sobre Jorge Ben, por exemplo, tenhamos a consciência de que só com humildade, muita pesquisa e uma bela dose de cara de pau vamos conseguir falar com alguma propriedade. Vai dar o dobro de trabalho, vai doer, vai ser foda terminar. Vai soar estúpido mesmo depois da décima quinta revisão. Mas a gente tem que ir lutando para adquirir o repertório que o tempo roubou. Mesmo que isso signifique mais uma madrugada em claro, mais um maço de cigarros, mais um café, e uma humildade gigante para virar para um cara que viveu aquilo e perguntar: o que eu estou escrevendo faz sentido?

Já fiz análises apressadas e falei muita merda exatamente por não ter presenciado algumas realidades, que chegam para mim distorcidas, modificadas ou com um nostalgia fora de lugar. Culpa de quem? Minha, que preciso ter a coragem de me enfurnar naquele som até conseguir tirar dali alguma conclusão diferente, inusitada, sem ficar repetindo o que todo mundo já falou. É preciso dar a cara a tapa, e vou te dizer que nem sempre tenho a coragem de fazer isso. Estou aprendendo, aos poucos, a não me desesperar com tudo aquilo que não vi e me focar em fazer o melhor que posso – e transformar esse melhor todo dia, até que ele fique foda e seja um orgulho para mim.

Mas não acho que eu esteja generalizando quando falo que esse não é um problema meu, de âmbito pessoal. Porra, quanta gente não está aí achando que é o melhor crítico musical da paróquia na hora de escrever, por exemplo, uma retrospectiva da carreira do Blur até chegar no já histórico retorno do grupo? E quanta gente não acha que é suficiente conhecer um tiquinho da história do grupo, ter ouvido os principais hits e saber quem é Damon Albarn para fazer um textão e começar a receber os elogios?

Acho lindo que todo mundo se esforce, vá atrás, pesquise tudo que for possível e construa textos maravilhosos. É para isso que estamos aqui – para transformar amor em texto. Mas não dá pra fazer isso sem ter consciência daquilo que não somos, e não vamos ser nunca.

E a emoção, a gente segura como?

Escrever sobre música também é difícil porque se apaixonar é uma coisa que costuma ser não só instantânea como fulminante. Quem escreve sobre ou ama muito (ou os dois) costuma baixar uns 5, 6 álbuns por semana, isso sem contar a imensidão de CDs favoritos que ouvimos sem parar no carro, no ônibus, no metrô, de madrugada, na janela no final da tarde com um cigarro e uma cerveja, e os tantos shows que assistimos sem parar. Daí que são tantas informações (e, literalmente, tantas emoções), que fica difícil não amar muita coisa ao mesmo tempo, curtir tudo muito rápido, e, na pilha de escrever antes que o fogo apague, amamos sem critério, sem cuidado, sem dar tempo ao tempo.

Faz um bem danado, claro, estar em sintonia com tudo que sai por aí de novo, e manter o senso crítico equilibrado o suficiente para não virar aqueles tiozões chatos que só curtem “rock das antigas” e acham que tudo que é lançado hoje é uma merda. É lindo conseguir amar sem amarras, sem chatice intelectualóide, sem preconceito.

Mas calma lá, porque depois bate a ressaca. E a vergonha alheia. “Porra, esse disco, que eu achava simplesmente sensacional semana passada, hoje está só OK. O que aconteceu com ele? E comigo?”. O que aconteceu é que normalmente o tempo ajuda a colocar algumas perspectivas no lugar, e o que era maravilhoso no calor do momento e sob o efeito de umas brejas a mais passa a ser apenas o que é de fato – algo comum, que não vai além de ‘”legal”.

Esse amor passageiro é delicioso, mas precisamos aproveitá-lo com cuidado. Porque quando ele acaba, as resenhas continuam lá, e os elogios também.

Na hora de resenhar shows, então, a paixão costuma ser ainda mais absurda, daquelas que deixam qualquer um sem ar. A gente chega em casa ainda embriagado daquela atmosfera que só um show pode proporcionar, intoxicado de prazer e com uma puta vontade de escrever. Daí vai naquele fluxo de pensamento que o senso crítico não costuma curtir muito. Sai um texto lindo, cheio de odes, de amor pra dar. E, quando acordamos no dia seguinte, fica aquela sensação: porra, que piegas!

E, mais uma vez, o contrário também costuma ser péssimo: chegamos no show de mau humor, com uma puta má vontade, não gostamos do artista, não gostamos do discurso, etc. Daí não tem jeito: o texto sai tendencioso, raivoso, cheio de ressentimento.

Prefiro a paixão ao veneno, claro. E sempre abuso do amor na hora de escrever. Mas, se a gente sempre conseguisse misturar um pouquinho dos dois, todo mundo que lê iria agradecer.

E o preconceito fica como?

Nem adianta negar, todo mundo tem algum preconceito aí guardadinho, só esperando a oportunidade certa pra mostrar as garras. E na crítica musical ele costuma vir revestido de falsa sabedoria. Sabe aquele povo que fala que, se você não curte determinada banda, é porque não gosta de música, só finge?

É uma tática inteligente, porque se você diz “ah, você não curte essa banda, então não entende de música”, é fácil rebater – afinal, quem disse que entender de música é mostrar preferência por algo previamente estabelecido? Mas quem acusa os outros de não gostar de música faz algo mais grave: não é que aquela pessoa não entende a importância da banda em questão, e sim é uma troglodita qualquer que finge ser apaixonada por uma arte da qual não faz parte.

Se você não gosta de música, então não devia estar palpitando, não devia estar escrevendo sobre isso, deveria estar cantarolando melodias radiofônicas e permanecer para sempre em um canto obscuro onde não atrapalhe ninguém com suas opiniões. É meio essa a conclusão que esse povo metido a fodão da música quer que todo mundo chegue – 0 cara não curtiu essa banda? Relaxa, ele não gosta de música mesmo, why bother?

A questão é que definir bom gosto é uma coisa que ninguém conseguiu resolver até hoje. Muita coisa considerada péssima e ridícula anos depois ganha status cult. Esse movimento acontece sempre e é normal que ocorra. Hoje, gostar de coisas thrash é cult, é legal, principalmente com essa onda de não se levar muito a sério no universo artístico.

Mas o que não dá para fazer, nunca, nem de zoeira, é ficar falando que o cara que não gosta da mesma banda que você não gosta de música. Quem lê o que você escreve não é burro – e não merece ser tratado como tal.

“Ah, juntei uns amigos no estúdio e saiu isso!”

Tem uma coisa que me incomoda bastante na música e que acaba refletindo na crítica também. Eu não me levo a sério – e todo mundo que me conhece sabe que eu não consigo segurar a gargalhada quando me deparo com alguém que se acha a última bolacha do pacote.

Mas eu realmente não me conformo quando algumas bandas levam absolutamente tudo na brincadeira, e a crítica vai atrás na boa, sem questionar. Acho lindo que você se divirta com sua banda, que toque por prazer, que ame cada nota, cada riff, cada show, cada composição.  Mas não engulo aquele povo que toca de zoeira, tacando tudo pra cima no palco, fazendo piadinha interna e sendo incensado pela crítica por fazer “música descompromissada”.

Fazer música e se divertir ao mesmo tempo é uma coisa, e estar pouco se fodendo para o que você está fazendo, tocar tudo de qualquer jeito e se achar foda é outra bem diferente. Não consigo respeitar quem faz as coisas de qualquer jeito porque acha que essa é uma postura cool. E não consigo entender quando algum crítico diz que bandas com esse tipo de atitude trazem “frescor a uma cena que se leva muito a sério”.

Isso acontece com no mínimo uma banda gringa por semana, sem lá muito critério, como se irresponsabilidade com a própria criação fosse algo a ser admirado. Desculpa, mas eu não consigo entender.

Os fãs não fazem parte da equação?

Até para quem lida com isso todo dia é difícil compreender a explosão que algumas bandas teen têm experimentado nos últimos tempos. A coisa é tão rápida que chega a ser atordoante: milhares (mesmo, sem hipérbole) de fãs se aglomeram todos os dias nas portas das rádios, seguem reportagens e fazem de tudo para chegar perto de seus ídolos, que tocam em bandas como Restart, Replace, Cine, etc.

Tá legal, pode usar o argumento que você quiser: isso não é música, é lixo, quando eu era adolescente eu ouvia coisas bem melhores… sirva-se de qualquer justificativa que achar mais digna para tentar dizer que essas bandas não fazem música, então não servem de exemplo pra nada.

Mas tenha a noção de que isso não resolve a questão mais importante – se a gente fica tão revoltado com o que “os jovens de hoje” (estamos velhos, é isso?) escutam, como fazemos para tentar entender? Porque se existe uma postura que não dá para aceitar é simplesmente falar que tudo é uma merda, que os adolescentes de hoje são burros e consomem qualquer coisa que lhes é enfiada goela abaixo e que não há salvação.

Não só não dói como acho essencial tentar entender de onde vem essa admiração por bandas que nos entediam musicalmente. É fato que muitos desses músicos são moleques que ainda não têm muita noção de música e alguns, inclusive, têm problemas com acordes simples. Então é hora de saber da boca dos fãs: oi, porque você gosta da banda X ou Y? O que te atrai? O que mais você ouve?

Vá até um show de uma dessas bandas e comece a caçada: fale com todos os fãs que você conseguir, tente sacar o que existe por trás disso tudo. Converse com músicos de outros estilos, saiba o que eles acham também. Converse, obviamente, com as bandas em questão, para entender o que os moleques fazem, qual o background musical deles, a relação com suas respectivas gravadoras, etc.

Acho importante fazer isso, tentar traçar um panorama, por menor que seja, para compreender de onde surge um gosto musical que é tão absurdamente rechaçado pela crítica musical. Porque acho muita pretensão tentar justificar tudo com o mesmo discurso de sempre de que adolescentes são burrinhos e influenciáveis e não merecem nada melhor do que isso. Quem sabe ir atrás não resulta em matérias e análises mais justas e mais esclarecedoras?

Todo mundo lê todo mundo

Eu leio você, que lê o fulano, que é amigo do sicrano, que é meu ex e que lê o blog do fulano… crítica musical é muito isso: você pode não conhecer pessoalmente aquele cara X, mas com certeza vai ler o blog dele. Daí todo mundo se ama, admira todos os textos do outro cara, fica uma puxação de saco sem fim no Twitter…

Acho ótimo que todo mundo leia as críticas dos outros (eu mesma tento ler tudo que dá, sempre, nem que seja depois), mas não dá para ficar na eterna babação de ovo. Nem fazer a mesma coisa, aliás, escrever sobre as mesmas pessoas, as mesmas músicas, os mesmos vídeos… fica chato, restrito e até superficial.

O legal é quando um texto fodão, como esse do Pedro Alexandre Sanches sobre o show de lançamento do segundo CD da Mallu Magalhães, cria um debate que continuou com o Alexandre Matias e foi além. Sempre me sinto bem quando vejo uma discussão extremamente importante (nesse caso, sobre o papel da indústria fonográfica e da crítica musical na criação – e exploração – de um artista) sendo feita na boa, por pessoas que discordam mas nem por isso ficam trocando farpinhas chatas no Twitter ou em seus respectivos blogs.

E quando a intenção é foda mas o resultado é mediano?

Essa é outra coisa que me incomoda muito, e inclusive sempre me deixa travada na hora de escrever. No final do ano passado, na época do Maquinária Festival, entrevistei a Amy Lee, vocalista do Evanescence, para o Portal Virgula.

A entrevista foi longa. Conversamos sobre o novo álbum da banda, ainda inédito, sobre o passado do grupo, que hoje não conta mais com nenhum de seus integrantes originais e passou por mudanças radicais de sonoridade, e sobre os artistas que moldaram a percepção musica dela.

A formação musical de Amy foi sólida, repleta de boas referências. A garota conhece de tudo, é uma apaixonada por trip hop e música eletrônica e tem um tal amor pelo que faz que dá medo. E nem é ingenuidade não: poucos artistas passam tanto amor pela própria música quanto ela, que parece que realmente curte cada uma de suas composições.

Mas e aí? Ela ama cada música dos dois álbuns oficiais da carreira do Evanescence (embora titubeie um pouco na hora de falar do álbum não-oficial Origin, que pouca gente ouviu), mesmo que hoje algumas delas soem distantes. Todo esse amor, esse carinho e essa vontade de fazer música boa terminam na mesma história: um álbum que não passa de razoável, repleto de sonoridades previsíveis e que é rechaçado pela crítica assim que chega às lojas.

Como fazer a crítica de um álbum desses, que vem com todo um repertório de boas intenções mas não atinge o resultado que deveria? Sei muito bem que o que importa é o resultado, não a intenção – se a música é ruim, pouco importa se o artista que fez é foda ou não.

Mas às vezes fico pensando que deveria importar. Fico pensando se, na hora de fazer uma resenha de um álbum, não seria nossa obrigação entender melhor a cabeça de quem faz, os motivos e inspirações que estão diluídos ali. Não sei se é preocupação demais, neura demais, mas quem articula e cria uma obra de arte responde por ela, pelo bem e pelo mal. E é atrás da cabeça dessa pessoa que temos que ir para ver se aquele disco faz ou não sentido.

Isso não resolve a questão principal, claro. A pessoa pode ser foda, mas se o disco for ruim, paciência, não dá para remediar. Mas é possível entender, sacar de onde veio aquilo e talvez o que deu errado.

E essa discussão toda aqui ainda vai longe, longe… assunto é o que não falta. Vamos ver onde vai dar.

Agradeço as pessoas que tiveram discussões sobre esses assuntos comigo e que me inspiraram em vários tópicos =) (em especial, @tonollica e @carolnogueira).

Um resumo desse texto foi publicado originalmente no Portal Virgula

Em seu álbum de estreia, Eu Menti Pra Você, Karina Buhr é pura malemolência. Embora suas letras tragam vários toques irônicos e sarcásticos, o clima que predomina é o da delicadeza. Mas não foi esse lado da cantora que surgiu em seu show de lançamento, que aconteceu na noite de hoje (27) na choperia do Sec Pompéia.

No lugar da sutileza, surgiu a convicção. E no lugar da doçura, a cara a tapa, pronta para se jogar em um novo desafio. Karina apostou alto, criando um universo confessional e intimista em seu álbum de estreia solo, Eu Menti Pra Você. E ao vivo, acompanhada por Bruno Buarque (bateria e MPC), Mau (baixo), Guizado(trompete), Dustan Gallas (teclados e piano), Otávio Ortega (teclados e bases eletrônicas), Marcelo Jeneci(acordeon e piano) e Edgard ScandurraFernando Catatau (guitarras), a cantora trouxe toda a sua energia e cara de pau para encantar o Sesc Pompéia.

Longe da calmaria, Karina apostou no grito e na performance nervosa, pilhada e tensa. E fez muito bem, já que o show, que durou um pouco mais de uma hora, conseguiu reunir com perfeição os acordes harmônicos e calmos do disco com uma vibe mais crua, “suja”, evidenciada pelas guitarras certeiras de Fernando Catatau e Edgard Scandurra. Deu tudo certo, e até mesmo as faixas mais irregulares do álbum de Karina melhoraram muito ao vivo com a interpretação talentosa da cantora e a presença de sua excelente banda de apoio.

A acústica cuidadosa e o ambiente intimista da choperia do Sesc Pompéia – que estava lotada – ajudaram muito a primeira apresentação oficial de Karina Buhr após o lançamento oficial de seu primeiro álbum.

Eu Menti Pra Você pode ser um ótimo trabalho de estúdio, mas a verdadeira força da cantora está no palco – local em que coloca toda a experiência adquirida no Teatro Oficina de Zé Celso em harmonia com a malemolência do Carnaval de Recife que define a sonoridade de sua carreira. É tudo junto – mas dá certo.

A minha dúvida agora é a seguinte: será que o show de Karina vai continuar da mesma forma ou a cantora vai desenvolvê-lo para suas próximas apresentações? Como Fernando Catatau e Edgard Scandurra estiveram presentes apenas no lançamento do CD, Karina vai pegar pesado na estrada sem as guitarras dominantes do conjunto que encantou o Sesc Pompéia.  Vai ficar como?