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A reportagem de capa da Rolling Stone deste mês chegou atrasada – afinal, a Billboard já tinha colocado a máquina poderosíssima do Black Eyed Peas na capa com uma reportagem extensa sobre o entrelaçamento entre comércio e música responsável pelo sucesso do grupo.

Mas a matéria da RS tem um trecho que define muito bem não só a lógica do sucesso do Black Eyed Peas como toda a mercadologia que faz com que não consigamos mais distinguir as fronteiras que separam a música do jingle, a canção da publicidade descarada.

Com vocês, a descrição de uma discotecagem de Will.i.am – amém, David Guetta e Tiesto. Vocês venceram.

Entre luzes piscantes e batidas insistentes, Will.i.am instala um Macbook e uma interface retangular com alavancas e botões iluminados. Enquanto a multidão berra, ele coloca um par de fones de ouvido cor de laranja e pega um microfone. “Yo, Houuuuuuuuuuston!”, ele incita, desencadeando um acorde de sintetizador orquestral e cheio de drama de um disco de David Guetta. “Todo mundo ertá pronto para arrasar?”. Ele faz um trejeito com a mão e coloca para tocar uma batida intensa, então dá início a uma performance ao vivo de rap, canto e cross-fading entre quatro canais em um sistema que ele chama de “iTunes com estereoides”.

Sad Piano

E a boa para esta tarde chuvosa é Sad Piano, do novo álbum da cantora Cibelle, Las Venus Resort Palace Hotel.

OK, todo mundo sabe que é saudável não se levar a sério e ter senso de humor suficiente para rir das próprias gafes e burradas. Não se levar a sério é bom porque promove a crítica e, principalmente, a autocrítica. Mas, em música, essa atitude de “não me levo a sério, juntei aí uns amigos na garagem lá de casa pra fazer um som e saiu a banda” me incomoda, e incomoda muito.

Primeiro porque é falácia – 90% das bandas que dizem que não têm muita noção do que fazem e que não curtem se levar a sério porque isso é coisa de gente prepotente confundem despreocupação com displicência. Segundo porque ser ambicioso não é algo ruim. Tudo bem que quanto maior a pretensão maior o tombo se der errado, mas querer fazer um álbum foda é algo incrível, louvável, corajoso. Esse discurso babaca de “ah, a gente foi juntando as composições aos pouquinhos e fizemos na boa, sem muita pretensão, só gravando para a gente e nossos amigos” é, oi, CHATO. Pelo amor de deus, coloca o seu na reta, assume o risco de fazer algo fodão, mesmo que dê barbaramente errado. Quer dizer: se der errado, ah, a gente só fez para nossos amigos, e foi só uma tentativa pequena, nosso verdadeiro álbum ainda vem por aí. Agora, se por acaso dá certo, são os novos gênios da música.

Falar que a sua banda não se leva a sério é uma maneira bem fácil de não ser cobrado por resultados e de não precisar ter a coragem de dar a cara a tapa para as críticas (que virão) e para o público (que nem de longe é estúpido). Se o seu negócio é misturar axé com samba com dancehall com grindcore, amigo, abraça o capeta e se joga no inferno. Acredite no que você está fazendo, coloque seu coração nisso, para o bem e para o mal. Porque daí o resultado vai ser sincero, o que por si só já é um avanço para a cena musical. Pode ser uma merda, mas é um risco que todo mundo que se joga de cabeça nas coisas corre. Todo mundo que é apaixonado por alguma coisa e que se joga sem medo em projetos arriscados (e assume que, sim, está tentando fazer algo fora de série) cedo ou tarde vai virar motivo de piada. E daí? Toca o foda-se e faz o que te der na telha. Quem sabe assim essa chatice de “ai, sabe, nunca quis fazer nada demais, sempre quis fazer algo só pra mim” acabe de vez. Que eu saiba, quando alguém quer fazer algo APENAS para si próprio, é bem simples: grava aí no seu PC, mostra pros seus amigos e deixa quieto. Colocou para todo mundo? Então aguenta o tranco.

Mas é óbvio que essa história, como todas as outras, não tem só esse tópico a ser discutido. Algumas vezes esse discurso de “não sabia o que estava fazendo” é verdade mesmo – ou porque a banda ainda não tem noção do que faz por falta de estrada e experiência na indústria musical ou porque é um meme criado por produtores e figurões das gravadoras, por exemplo. Daí é outra história, embora seja igualmente complicada e envolva muitas pessoas.

Mas o resumo da ópera é o mesmo: talvez seja a hora de parar com esse discurso de “é tudo sem querer, nós não nos levamos a sério”. Vai esperar até quando então para colocar a cara a tapa?

Nada melhor do que Bill Callahan para fazer a gente parar e ouvir

A quantidade de álbuns que vazam toda semana é absurda. Nos últimos dias, tudo resolveu surgir ao mesmo tempo: The National, Crystal Castles, The New Pornographers, Jamie Lidell, Foals, Hold Steady, Black Keys, Gogol Bordello… muita, muita coisa. Daí vem aquela questão: ninguém vive de brisa e de ficar ouvindo música e suspirando pelas faixas mais bonitas. A gente trampa (e muito), fala no msn, liga pra cá, liga pra lá, resolve problemas, etc. E, enquanto faz tudo isso, vai ouvindo música da maneira que dá. Aposto que muita coisa que você ouviu durante o trampo nem fica gravado na sua memória – vai pro lixo como se fosse um álbum inédito.

Acho uma caretice do caralho esse povo que fica falando que o mundo moderno é fútil e todas as coisas são efêmeras – e que a rapidez necessariamente é uma coisa do demônio. Eu amo uma adrenalina, adoro as coisas rápidas, fugazes, e não acho que desacelerar seja uma coisa obrigatoriamente boa. Calma lá, caso contrário vira chatice politicamente correta. Mas uma coisa é verdade: essa mania de tentar otimizar o tempo fazendo absolutamente tudo na mesma hora faz com que ouvir música seja só uma desculpa pra ficar de fone de ouvido. Porque não dá para prestar atenção em tudo ao mesmo tempo, e música não pode ficar em segundo plano.

Daí que eu me pergunto: a gente ouve tudo na pressa. Correndo, fazendo um milhão de coisas. E existem tantos álbuns na fila que ouvimos no máximo uma vez cada um deles. Ou seja, tudo fica superficial, volúvel, e não em um bom sentido.

A pergunta que fica na minha cabeça é: como ficarão esses álbuns que achamos lindos (e, claro, os que achamos sofríveis) quando forem ouvidos na janela, de tardinha, em um dia de folga, com tempo de sobra e um cigarro na mão? Será que não vale tentar antes de fazer uma resenha baseada em duas ouvidinhas rápidas?

Música é uma coisa que cresce. Mas pede tempo, e bastante…

Tirei a imagem daqui.

O show de ontem (17) no Credicard Hall encerrou a terceira passagem do Placebo pelo Brasil. Foi um show complexo de analisar, por vários motivos: para começar, a banda tem uma carreira longa, que soma 16 anos, seis álbuns e muitas brigas entre Brian Molko e Stefan Olsdan. Por cinco álbuns, o Placebo permaneceu o mesmo, sombrio, obscuro. Mas em sua última empreitada, Battle For The Sun, o grupo seguiu o caminho da luz e fez um álbum ensolarado, otimista, mostrando que o futuro da banda pode ser diferente. Por esse fator, a nova turnê do grupo precisa ser analisada sob a perspectiva dessa mudança, e ver até que ponto essa expectativa se cumpre quando o Placebo está em cima do palco encarando seus antigos fãs frente a frente.

E aí vem o problema: não, a turnê não convence. Não, o show não é criativo. Mas, sim, a banda é muito boa. Seria uma injustiça sem tamanho dizer que Brian Molko, Stefan Olsdan e Steve Forrest não sabem o que estão fazendo em cima do palco. Ah, eles sabem, e muito bem, como a plateia do Credicard Hall presenciou. E exatamente por isso é preciso cobrar mais: depois de 16 anos, o Placebo quis se reinventar. Mas fez isso sem criatividade e ficou com cara de banda velha, datada. E músicos tão absurdamente competentes, como mostraram ser, conseguem fazer bem melhor do que isso.

Segue abaixo a resenha que fiz do show para o Portal Virgula:

Estar apaixonado é uma experiência indescritível. Os sentidos começam a nos enganar, o raciocínio fica para lá de relativo e as coisas deixam de fazer sentido. Esse estado de êxtase caracteriza com precisão não só a relação entre o apaixonado e a pessoa amada como é uma metáfora perfeita para o caso de amor entre o Placebo e os fãs da banda inglesa – as letras atormentadas e a atmosfera soturna da parceria criada por Brian Molko e Stefan Olsdan foram a paixão de inúmeros fãs encantados pela música dark do grupo.

O grupo, que tem seis álbuns na bagagem, desembarcou no Brasil esta semana com a turnê de divulgação de seu trabalho mais recente, Battle For The Sun. E, assim como o álbum representou o ocaso da paixão intensa dos fãs mais radicais em relação ao grupo, a turnê do trabalho menos melancólico dos ingleses traz um gostinho amargo de decepção: por mais que tudo pareça perfeito, a relação chegou naquele ponto em que o amor absoluto deu lugar a uma saudade – e a vontade irresistível de seguir em frente.

Acompanhados por Fiona Brice (violino, teclado, theremin e vocais de apoio), Nick Gavrilovic (teclado, guitarra e vocais de apoio) e Bill Lloyd (baixo e teclado), o vocalista Brian Molko, o baixista Stefan Olsdan e o novo baterista Steve Forrest entraram no palco exatamente às 22h com For What It’s Worth, primeiro single do álbum Battle for The Sun.

É inegável o talento do Placebo em cima do palco – após uma parceria que já dura 16 anos, Brian Molko e Stefan Olsdan não precisam mais nem ensaiar seus passos e seus acordes, de tão instantânea que parece a compreensão entre suas performances. Tecnicamente, tudo perfeito: o setlist, que equilibra novas músicas, como The Never-Ending Why e Ashtray Heart, com hits assobiáveis como Every You Every Me, Meds e Come Undone, a presença de palco dos músicos, que sabem muito bem o que estão fazendo, a reação do público, que não parava de gritar e pular ensandecido… tudo apontava para um show incrível.

Então, por que tudo parecia tão mediano? E a paixão, o amor, o deslumbre com todas as músicas climáticas e emocionantes que caracterizavam o Placebo? Não é uma questão de envelhecer bem ou mal, porque o grupo comprovou que é possível continuar junto após 16 anos de estrada tocando com a mesma técnica. É a ausência da criatividade que faz com que o show da nova turnê seja apenas mediano. Battle For The Sun é um álbum que soa muito mais otimista do que a carreira anterior do Placebo, e esse é o diferencial do CD. Mas, no palco, tudo parece mais do mesmo – e a inovação que é anunciada nos estúdios não é cumprida nos palcos.

Por sorte, Brian Molko e Stefan Olsdan conseguiram comandar a pequena plateia do Credicard Hall (provavelmente devido aos preços abusivos, a Pista Premium do show estava quase vazia) com maestria, usando e abusando das guitarras e da bateria de Steve Forrest (que, aliás, merece aplausos por sua apresentação irretocável). Infelizmente, a acústica da casa não ajudou, sem contar que no começo do show era muito difícil ouvir a voz de Brian Molko, que se perdia em meio aos demais instrumentos.

A plateia do Credicard Hall saiu satisfeita após uma hora e meia de um show correto e sem surpresas, que evidenciou dois fatores: a capacidade inegável dos músicos do Placebo na hora de fazer boa música e o perigo de se investir em um futuro sem inovações. Se o Placebo não trouxer aos palcos uma turnê que consiga driblar a nostalgia e a vontade de celebrar um passado que não vai retornar, o perigo continua lá – a transformação de uma banda ícone de uma época em um dinossauro que vai para sempre ficar no armário dos CDs velhos. E, como todo mundo sabe, a gente só continua amando aqueles que conseguem despertar a mesma paixão em qualquer época.

Vamos brincar de comparar, gente?

Olha só a música Good Clean Fun, da Cat Power, e D7, cover do Nirvana para a faixa do The Wipers.

Quem diria?